Estou ouvindo mamonas assassinas, depois de anos sem ouvi-los. Na minha adolescência era fã. Agora acho genial, das melhores coisas já se fez na musica brasileira.
Eles conseguiram trazer outra vertente de antropofagia, a da espinafração, que os nossos intelectuais nao entenderam até hoje nem em Oswald de Andrade.
Ouso dizer que o conteúdo das letras, e a forma delas, é de uma brasilidade que nem Chico com seus poemas elaborados nem Caetano com seus araças azuis nem mesmo Guimarães Rosa com toda a sua erudição atingiram.
A metalinguagem que aparece nas brincadeiras com o "Creuzebek" e “dei um peito aqui dentro”, são muito interessantes. Deixam claro que a gravação do CD foi um acontecimento na história, assim como brescht rompe com o teatro realista de stanislavsky ao quebrar a quarta parede e falar diretamente com o público. A música nao vem do nada para nossos ouvidos, são músicos num estúdio gravando um disco.
É preciso ter nenhuma sensibilidade para não ver um romantismo real escondido sob a superficie de zueira de Uma Arlinda Mulher. Um romantismo genuino, tal qual o de Oswald quando escreve o poema: AMOR HUMOR.
Eles tocam nos assuntos que, desde o ancestral maxixe até o funk carioca, sempre estiveram presentes na musica popular brasileira, e têm a competência de trazer novidade a temas já muito batidos.
Em mamonas, o bom humor já recorrente na musica brasileira, principalmente no samba, aparece em uma estética completamente diferente daquilo que o samba a mpb e a tropicália produziram.
Além da brincadeira, o uso do português errado nos leva a pensar nos limites do preconceito linguístico. A impressão geral de que Mamonas Assassinas é uma bandinha de brincadeira, menor do que outras bandas, menor do que outros grandes artistas, mostra por si só como eles estavam a frente do seu tempo e andando acima de certos preconceitos de incelectuais de miolo mole.
As performances, a fragmentação, a enorme teatralidade dos shows, chegando ao ponto de ter diversos personagens com figurinos e tudo mais para cada música, também são uma novidade na cena.
A presença de personagens em cada música torna até difícil limitar Mamonas Assassinas a uma banda de música. Nunca desde Carmem Miranda houve uma presença tão teatral na música brasileira.
O sucesso absoluto de vendas deixa bem claro que se trata de algo que atingiu o brasileiro, não somente as crianças e adolescentes, em cheio.
Sua estética devora e dialoga com praticamente todos os tipos de música, do samba, à música romântica, ao repente e ao havy-metal, inclusíve fazendo meta-referências ao próprio estilo e aos fãs do gênero, como no caso de Debil Metal que diz, (numa tradução livre): “Você não entende a letra? Então chacoalha a cabeça babaca!”
Eles transformam em totem e em carnaval alguns tabus como a homossexualidade, o peido, a “baixa escolarização” do imigrante nordestino em São Paulo, a maconha...
Tudo isso me convence de que as dificuldades de uma “banda séria” de guarulhos, sem recursos para se promover frente à comoditização das bandas de rock nos anos 90, sem poderem ser absorvidos pelo mercado - que não tem mesmo capacidade para absorver todo o talento que produzimos, mas jamais admitirá isso - essas dificuldades todas acabaram sendo o calor que ajudou essas mentes brilhantes a produzirem algo do melhor que nossa melhor arte já viu.
Estranho que não apareçam outras bandas seguindo seus passos. A morte do grupo inteiro contribui para isso. Eles foram tão absolutamente originais que qualquer banda que tente seguir este caminho estará copiando Mamonas, tentando ganhar dinheiro com aquilo que eles construiram - é assim que nos sentimos, embora não seja necessariamente verdade.
Vamos precisar de mais maturidade para não termos ciumes de quem tentar construir sobre a base e o legado que eles deixaram. Se Chico não pudesse ser decisivamente influenciado pela bossa nova, nao existiria como tal e trazer tanta novidade. Se os mutantes não pudessem ter forte inspiração nos beatles, também não existiriam.
Ao morrerem em um trágico acidente, os Mamomas não foram somente assassinados, esse sentimento de ciumes sobre sua linguagem e sua estética que sua morte nos causou, nos causa, assassina também todo seu legado e um universo de novidades que viriam deste caminho.
