
“NOVOS HORIZONTES”
ENGENHEIROS DO HAWAII (CD/DVD)
“Novos Horizontes” (Universal Music, 2007), 18º disco (5º DVD) na carreira de Humberto Gessinger e mais novo capítulo na história dos Engenheiros do Hawaii, é uma encruzilhada entre ontem, hoje e amanhã.
Antes de tudo, este trabalho é um retrato fiel do atual momento da banda. Gravado ao vivo, no Citibank Hall (São Paulo, SP), nos dias 30 e 31 de maio passados, o álbum é composto por material inédito (“Vertical”, “No Meio de Tudo Você”, “Luz”, “Cinza”, “Faz de Conta”, “Não Consigo Odiar Ninguém”, “Quebra Cabeça”, “Guantánamo” e “Coração Blindado”) e por algumas regravações (“Toda Forma de Poder / Chuva de Containers”, “Alívio Imediato”, “Pra Ser Sincero”, “Piano Bar”, “Parabólica”, “Simples de Coração”, “A Onda”, “A Montanha” e “Novos Horizontes”). Canções compostas em períodos distintos, mas que lado a lado se completam de forma harmoniosa.
Como o próprio Gessinger gosta de dizer, a experiência com o formato acústico foi para ele um ponto de partida. “Novos Horizontes” começou a surgir, assim que os Engenheiros deram início à turnê de seu trabalho anterior, “Acústico MTV” (Universal Music, 2004). Ao longo dos mais de dois anos em que se apresentaram com sucesso por todo o país, fosse em teatros ou grandes festivais, o grupo se aprofundou ainda mais na sonoridade acústica. Canções que ficaram fora do projeto piloto acabaram ganhando arranjo acústico na estrada, a viola caipira foi incorporada aos instrumentos utilizados por Gessinger e sob a influência desse momento, material inédito foi sendo gerado.
Em relação ao “Acústico MTV”, este é um disco com um pouco mais de peso, com um viés mais estradeiro, e que por ter sido registrado ao vivo, ganhou muito em sinceridade. “Gravar com a possibilidade de tocar ao vivo torna a canção um pouco mais real, ao mesmo tempo em que vamos nos livrando da tecnologia e ficando menos cerebrais”, avalia Humberto. Dentre as regravações, os destaques ficam sendo as belas “Simples de Coração” e “Novos Horizontes”, além das novas versões para os clássicos oitentistas “Toda Forma de Poder” e “Alívio Imediato”.
As canções inéditas demonstram, que após mais de 22 anos, Humberto ainda tem muito a dizer; ele continua com o mesmo olhar crítico. O discurso é de reflexão, cheio de perguntas; mas sem a pretensão de oferecer respostas. É interessante perceber como sua poesia se volta cada vez mais para a força do indivíduo, a possibilidade (opção) que cada um tem de fazer e de ser a diferença. “Eu Não Consigo Odiar Ninguém”, por exemplo, é candidata a novo hino da banda e talvez sintetize bem esse conceito. Humberto deixa o seu recado, mas sempre falando na primeira pessoa ("não vá dizer que eu estou ficando louco / só por que não consigo odiar ninguém / do goleiro ao centroavante / do juiz ao presidente / eu não consigo odiar ninguém"). Outra característica marcante é a facilidade com que uma mesma canção oferece leituras tanto no âmbito pessoal quanto no coletivo. “Coração Blindado” talvez seja um bom exemplo de criação feita sob esse prisma. Nela, Humberto entrelaça com destreza elementos como a covardia, a inércia diante da vida e a megalomania que o poder pode trazer ("fácil achar o caminho a seguir / num mapa com lápis de cor / moleza mandar a tropa atacar / na tela do computador / sem o cheiro / sem o som / sem ter nunca estado lá / sem ter que voltar pra ver o que restou"). Mas melhor do que continuar com essa análise, brindando-os com o clichê de um comentário faixa-a-faixa, é sugerir que cada um ouça o álbum e tire as próprias conclusões.
Uma particularidade em “Novos Horizontes” é o trabalho em equipe. Quatro das novas canções ("Coração Blindado", "Guantánamo", "Não Consigo Odiar Ninguém" e "Quebra Cabeça") são crias de Gessinger e dos músicos que o acompanham. “Faz de Conta”, foi escrita com Melissa Mattos, fã e responsável pelo site do grupo. Por fim, ”Cinza” é a mais nova parceria entre Humberto e Carlos Maltz, primeiro baterista e um dos fundadores dos Engenheiros do Hawaii, que para a alegria dos fãs, participa do CD/DVD, cantando e tocando bateria. A outra participação especial fica por conta de Clara Gessinger, filha de Humberto. Após ter participado do “Acústico MTV”, na regravação de “Pose”, Clara retorna fazendo duo com o pai em “A Onda” e “Parabólica”, esta última composta em sua homenagem, no ano de 1992. Com certeza, um belo momento do show.
Muitos serão os que, logo na primeira audição de “Novos Horizontes”, se relacionarão com o álbum como se ele fosse um velho conhecido. Além das canções que fizeram parte da turnê passada, a banda usou a internet como meio de dividir o processo de composição com seus fãs. Pelo site www.engenheirosdohawaii.com.br, é possível conferir vídeos e áudios das demos das canções inéditas. Segundo palavras do próprio Gessinger, uma forma de se acompanhar a beleza peculiar presente em cada etapa do processo de criação. É bem verdade que algumas pessoas sentirão falta do “boom” que novidades costumam trazer, do gosto de se comprar um CD e de ouvir uma canção pela primeira vez. A proposta aqui é outra, mais complexa. Este álbum é o registro de um processo que aconteceu às claras, diante de todos, seja por meio dos shows ou do site do grupo. O ouvinte deixa de ser passivo e participa da arte que consome, enriquecendo-a. De certa maneira, cada pessoa que de alguma forma se relaciona com os Engenheiros do Hawaii influenciou “Novos Horizontes” e fez parte dele.
A atual formação da banda conta com: Humberto Gessinger (voz, violões, viola caipira, bandolim, piano e harmônicas), Gláucio Ayala (bateria e vocais), Bernardo Fonseca (baixo), Fernando Aranha (violões) e Pedro Augusto (teclados). A produção do CD ficou por conta de Marcelo Sussekind, que havia trabalhado com a banda no também ao vivo “Alívio Imediato” (BMG, 1989). A direção do DVD leva a assinatura de Roberto de Oliveira, consagrado pela recente série de DVD´s sobre vida e obra de Chico Buarque.
Em “Novos Horizontes”, os Engenheiros do Hawaii olham para trás, mas pelo espelho retrovisor de um carro em movimento. Humberto Gessinger se recicla, segue com sua arte e fiel a si mesmo. O futuro é sim uma incógnita, mas somos nós quem o construímos, dia após dia. Cada um que escolha a sua forma de interagir com isso. É como dizem os versos da canção (de 2000) que empresta nome ao álbum: “quem constrói a ponte, não conhece o lado de lá...”
ANDERSON FONSECA | agosto de 2007
Foto: Washington Possato
